domingo, 8 de abril de 2012

Dia de Trégua

Hoje não era qualquer domingo. Era Páscoa. O dia da trégua - ao menos, na nossa família.

Nossa mãe acordaria a todos muito cedo para irmos à missa. Voltaríamos para casa. Teríamos um almoço especial. Passaríamos a tarde juntos. Pelo menos naquele dia, seríamos uma família. Nosso pai não iria jogar bola nem ficaria lendo seus jornais sozinho quando chegasse em casa. Nossa mãe não passaria o dia reclamando de tudo e de todos. E eu? Bem, se você estivesse aqui, ficaríamos em casa, juntas, conversando, como fizemos tantas e tantas vezes, sendo Páscoa ou não.

Era você que estava sempre presente, independente do dia, independente do humor. Um por um, amigos e família, poderiam me virar as costas. Menos você. Ah, você nunca falhava até o dia em que, inevitavelmente, falhou. Apesar de eu gostar de vê-la como uma parte orgânica de mim, você não era. Você era uma pessoa só, com idéias e sentimentos e vontades e um dia você os ouviria. Um dia... Um dia, você iria embora. Eu só não achei que seria tão cedo. Talvez eu não quisesse que fosse tão cedo.

Você era minha heroína, alguém a que eu aprendi a recorrer para tudo - do primeiro machucado à primeira desilusão, passando por todos os primeiros, segundos e por aí vai. Você transformava minhas lágrimas em risadas e então tudo estava bem. Com você, compartilhei meus medos e anseios, da prova difícil de matemática à briga com a melhor (depois de você, é claro) amiga, passando pela véspera da estréia no ballet. Foi para você que reservei minhas melhores qualidades e também para quem mostrei meus piores defeitos. Era você, você, você. Sempre você.

Até que você foi embora e eu precisei viver sem você. Eu gostaria de te culpar, mas seria injustiça - injustiça como cometi tantas e tantas vezes. Eu não fui para você o que você foi para mim, nem um milésimo disso. Eu poderia ter te ajudado, mas fui mais uma a cortar suas asas. Egoísmo sim. Não era que não achasse que você pudesse voar, mais do que ninguém, você podia. Eu apenas sabia que, quando você voasse, seria para bem longe de mim, para bem longe da nossa casa.

Eles também sentem sua falta, mesmo que eles nunca cheguem a admiti-la. Seu nome é proibido aqui. As memórias foram destruídas e reconstruídas até que você não fizesse mais parte delas. É como se você nunca tivesse existido, embora, dentro das paredes dessa casa, em cada cômodo, em cada objeto, sua ausência grite, querendo se libertar da prisão a que foi condenada. Prisão da qual você se livrou e deve estar aí pelo mundo, vivendo tudo que quis e nunca pode viver.

Para mim, seu nome não é tabu e você esteve presente em cada dia da minha vida. Eu me pego pensando, maravilhada, nas coisas que você deve estar fazendo, o mundo que você deve estar descobrindo. Fico morrendo de inveja dos amigos que você deve ter e que fazem parte de cada lembrança em que não estou. Mas espero que eles existem para amortecer as quedas - inevitáveis - da vida. Sei, por sentir na própria pele, como é difícil não ter alguém para te segurar quando você cai. Mas talvez... Talvez seja assim mesmo. Talvez, no fim das contas, a gente seja sempre sozinhos e nossos tombos e acertos sejam só nossos. Nada é pra sempre. Aprendi com você.

O que mais dói é que era para ser. Você é minha irmã e não deveria ser um objeto de censura na casa em que crescemos juntas e juntas descobrimos tantas e tantas coisas. Pode ser coisa de criança, mas, hoje, eu passei o dia todo olhando para as portas - da Igreja, de casa - na esperança de que você aparecesse. Na esperança de que você entrasse, sentasse e conversasse com a gente. Na esperança de que nossos pais não dissessem nada - nenhuma bronca, nenhuma crítica, apenas perdão. Na esperança de que as coisas voltassem a ser como eram nem que fosse apenas pelo dia de hoje.

Mas você não veio. Eles não tocaram no seu nome. Talvez você não esteja pronta para perdoar. Talvez eles não estejam prontos para perdoar. Não houve trégua.

domingo, 1 de abril de 2012

Tirando a Poeira...

É. Quatro meses e meio sem postar aqui. Muita coisa aconteceu - fui viajar, passei três meses longe de casa, voltei 15kg mais gorda e com muita bagunça para arrumar (e que ainda estou tentando arrumar). Tive um mês de março caótico e confuso, do qual estou me recuperando ainda, mas cá estou! Disposta a atualizar o blog toda semana! =)

De tantas e tantas dúvidas que tenho sobre a minha vida, eis uma única certeza: eu amo escrever. Amo, amo, amo. Mais do que tudo, mais do que a mim mesma. Nada me faz mais feliz, nada me faz me sentir mais viva. Entre tantos poréns que a vida trás, tenho certeza que a ficção é a grande paixão da minha vida e, se pudesse, viveria de contar estórias.

Mas também não teria sentido contar estórias se não houvessem pessoas para escutá-las. Então saibam que eu mantenho esse blog (e pretendo me dedicar mais a ele esse ano) na esperança de que alguém esteja lendo, se divertindo e/ou se emocionando com as estórias que aqui posto. Cada comentário nesses dois anos e um pouquinho fez meu dia muito mais feliz. E, na esperança de poder ouvi-los mais, criei novos meios de comunicação. Primeiro, gostaria de dizer que meu email, facebook e twitter estão às ordens: mandem emails, adicionem no facebook ou no twitter, sintam-se à vontade para comentar, criticar, fazer sugestões e bater papo. Também criei uma página do blog no facebook e ficaria muito feliz se vocês curtissem e comentassem lá: http://www.facebook.com/#!/BlogQuebraCabeca. Por fim, criei um tumblr, ainda estou aprendendo a mexer por lá, mas sintam-se à vontade para me adicionarem e, quem sabe, me ajudarem a brincar por lá =)

É isso. Esse post é mais para desempoeirar o blog. haha Pretendo voltar no domingo que vem com uma estória nova! Beijos grandes!

sábado, 12 de novembro de 2011

Cárcere

Bom dia! Hoje eu vim postar o segundo texto não publicado que eu tinha aqui no computador. Eu o escrevi no final do semestre passado, no teatro, para o tema "contos de vida e morte". Essa é a segunda versão dele. Entre uma versão e outra, eu escrevi Untitled, o que talvez explique a semelhança entre os dois textos!

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Três salas. Quatro quartos – cinco, se contar o cubículo da empregada. Seis banheiros – mas que exagero! Cozinha, escritório, piscina e jardim. Quanto vale essa casa?

Nada.

Eu não pagaria nada.

Mas alguém precisa pagar.

Quero me livrar dela. Preciso me livrar dela.

[voz feminina em off] Você precisa ver a casa! É ampla e espaçosa.

Não o suficiente para nós quatro, mãe.

Faltou espaço. Faltou tempo.

Faltaram tantas coisas.

[voz feminina em off] Eu quero ir embora, eu quero ir embora, eu quero ir embora!

No final, eu acabei voltando.

Quem diria? A casa desmoronou e quem ficou fui eu.

Herança? Que merda.

Aposto.

Aposto que isso foi parte do plano dele.

Ele conseguiu.

Ele sempre conseguia.

Todos, todos, todos - sob o controle dele.

[voz masculina em off] Nunca se esqueça de que vocês devem isso tudo a mim!

Eu não me orgulharia disso, pai.

Você destruiu tudo.

Tudo.

Ela está morta.

A culpa não é sua.

Mas é.

A culpa é dos dois.

A culpa é do casamento.

Da merda de casamento.

[voz feminina em off] Não.

Eu prometi que não diria sim.

Nunca disse.

Eu cumpro.

[voz masculina em off] Não enche o saco.

Meu irmão. Como se você se importasse.

Você fugiu.

Você fugiu.

Covarde.

Mentiroso.

Você tinha prometido!

[em off choro de criança]

Você também me abandonou.

Eu odeio você.

[silêncio]

Mentira.

Eu também minto.

Não posso odiá-los.

Eu amo.

Amo e odeio.

Odeio e amo.

Não dá para explicar.

Nunca deu.

[voz feminina em off] Eu não quero ficar sozinha no escuro, mãe!

[voz feminina em off] Não, você prometeu que iria ficar comigo na escola!

[voz feminina em off] Pai, onde você está?

[voz feminina em off] Adélia!

A empregada, sempre a única presente. Que clichê.

Menina rica.

Menina pobre.

Pobre menina rica.

Clichê, clichê, clichê.

[silêncio]

Ela também foi embora.

Todos foram.

Eu também, mas tive que voltar.

Maldita morte.

Maldita vida.

[vozes em off] RENATA!

Parem de me chamar.

Parem.

Eu já perdoei.

Eu ia perdoar.

Eu tinha de perdoar.

...Eu também errei.

Mas e a mim? Quem vai perdoar?

[vozes em off]RENATA!

Parem, já disse, parem!

[silêncio]

Também não precisam ficar quietos.

Eu odeio silêncio.

Sempre odiei.

[silêncio. grito. silêncio. grito. silêncio. grito.]

Odeio essa casa.

Odeio mais ainda por ela ser minha agora.

Quem diria?

Fui eu quem ficou.

Eu.

A casa está vazia e eu ainda me sinto sufocada.

Lembranças.

Fantasmas.

Vozes.

Ruídos.

Ruína.

Eu ainda quero ir embora.

Eu ainda vou me livrar dela.

E de tudo que tem dentro.

Nem que eu tenha que derrubar

Pedra

por

pedra.

Vocês estão mortos.

Mas eu estou viva.

Preciso

Quero

Vou

Viver.

Livre,

O que quer que isso signifique.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Fado

Boa tarde! Hoje vim publicar um texto antigo aqui! Na semana passada, enquanto organizava meus textos, reparei que tinha dois, escritos para as aulas de teatro, que não tinha publicado ainda. Como nas próximas semanas, lotadas de trabalhos, provas e exames médicos, dificilmente poderei escrever algo novo, decidi publicá-los no blog. O texto de hoje é uma pequena peça de teatro que escrevi logo no primeiro bimestre do curso, em abril, acho. O tema era cenas do cotidiano. A peça foi apresentada dentro da peça Entreatos, junto com peças de outros colegas da Dramaturgia, pelo Grupo de Teatro Estrada, da minha amiga Paloma, durante a Mostra em comemoração aos 15 anos do grupo.

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Mirante. Bancos estão dispostos pelo palco. Uma pequena grade protege seus visitantes da queda. Música portuguesa ao fundo, distante. Um senhor está de pé, observando a paisagem. Seu neto posiciona-se um pouco atrás.

Henrique – Acho melhor eu voltar, vô. O bar está cheio hoje.

Manuel – Fique mais um pouco, Henrique. Faz tanto tempo que a gente não conversa.

Henrique – É verdade. (Sentando-se) Quanto tempo faz que você não visita Fado... Uns dez anos?

Manuel – Treze. (Pensativo) Treze longos anos.

Henrique – Você gostava tanto daqui. Nunca entendi porque você foi embora.

Manuel – Foi difícil abandonar o bar, mas fico feliz em saber que você fez um excelente trabalho.

Henrique – Eu aprendi a amá-lo também.

(Pausa)

Henrique – Quando eu estou estressado, eu sempre venho aqui. O senhor sempre me trazia aqui quando era pequeno. Ainda não tinha a cerca. Depois do acidente, você nunca mais me trouxe.

(Pausa)

Henrique – Apesar dele, eu não tenho medo. Gosto de sentir o vento contra o meu rosto. Sinto-me livre, mesmo que por alguns instantes.

Manuel – Eu já ouvi isso antes. Ela era jovem como você.

Henrique – Quem?

Manuel – Uma mulher que eu conheci aqui. Toda história começa assim, não é? Um homem conhece uma mulher. Só que o final não foi feliz. Mas você já conhece essa história...

Henrique – Eu não entendo

Manuel – Saiu em todos os jornais, até na televisão. As pessoas gostam desse tipo de história. O bar nunca esteve tão cheio. Todo mundo queria saber onde... Como... Por que...

(Pausa)

Manuel – Eu nunca consegui voltar aqui porque eu me sentia culpado. Eu conheci aquela mulher. Ela vinha aqui toda sexta-feira, sentava-se à mesa mais afastada, não pedia quase nada. Mas sempre bebia algo, depois subia aqui e ficava horas sentada à beira do mirante.

(Pausa)

Manuel – Eu a observei por alguns dias. Começamos a conversar. Ela não falava muito, mas eu sabia que ela queria conversar. Desesperadamente. Eu queria salvar aquela mulher.

Henrique – Talvez você não pudesse.

Manuel – Eu tentei. Eu acho que tentei. Com o tempo, ela começou a confiar em mim. Ela vinha todo dia e ficávamos bebendo e conversando. Ela tinha um emprego estável, um casamento estável, uma vida estável.

Henrique – Parecia perfeito.

Manuel – Eu também achava. Não entendia porque ela queria jogar tudo aquilo fora. Eu tentava convencê-la de que aquilo era bobagem. Ela tinha uma vida toda pela frente.

(Pausa)

Manuel – No final, foi ela quem me convenceu.

Henrique – Mas... Como?

Manuel – Era escolha dela. Por que ela não poderia decidir se queria viver? (Falando mais rápido, um pouco alterado) Ela estava infeliz. Cada dia, mais infeliz. Eu não conseguia ajudá-la. Não podia nem ajudar a mim mesmo.

(Pausa)

Manuel - Ela tinha marcas pelo corpo todo. A cada tentativa frustrada, ela voltava aqui com uma nova cicatriz. Eu queria ajudá-la. Eu queria desesperadamente ajudá-la.

Henrique – Você não podia...

Manuel – Eu a ajudei. Ela só precisava de coragem.

Henrique – Você não podia evitar...

Manuel – Eu não quis. Talvez eu pudesse, mas, no final, eu não quis.

(Pausa)

Manuel – Era difícil evitar os noticiários e as fofocas. Eu tentei, ah!, como eu tentei! Eu me esforço para me lembrar dela como naquele último momento. Ela parecia tão leve enquanto caía. Livre, como ela tanto queria.

Henrique – Por que você está me contando tudo isso?

Manuel – Eu... Eu não sei. Eu guardei isso por tantos anos. (falando mais devagar) Todos esses sentimentos entalados, sendo revividos diariamente... Eu me sentia culpado por ter cedido. Todo mundo a achava covarde.

Henrique – E não era? Ela era uma suicida.

Manuel – E quem não é?

(Pausa)

Manuel – Eu achava que sim também. Que ela era covarde por abandonar a luta assim. Mas tenho inveja dela às vezes. Ela se libertou. Fui empurrando os dias, acumulando os desgostos... Eu me sinto mais covarde do que ela. No campo de batalha, escondendo-me da artilharia. Eu também fugi da luta. Não tinha pelo que lutar.

Henrique – Você não pode pensar assim...

Manuel – Não, meu neto, você que não pode. Você é jovem, é natural que esteja perdido, procurando um caminho... Eu já procurei por muito tempo, eu já desisti de encontrá-lo há muito tempo, eu já descobri que não há nada para se achar.

Henrique – Mas...

Manuel – Não se preocupe comigo. Eu já vivi muito. Agora é a sua vez. Eu só precisava me despedir. (Olhando para Henrique) Do meu futuro. (Olhando para frente) Do meu passado. (Suspira) Foi um longo presente, mas está acabando. Finalmente.

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Infelizmente, eu não pude assistir à peça, mas tive a oportunidade de ver alguns minutos dela em um vídeo no youtube. Se alguém tiver interesse em ver:

http://www.youtube.com/watch?v=hDULyKenYGc

Por hoje, é só! Até semana que vem! =)


sábado, 29 de outubro de 2011

Descoberta

Ela chegou em casa cansada. Normal, alguém poderia dizer. Mas ela estava realmente cansada – muito mais do que o normal. Durante a viagem de volta no ônibus – lotado, como sempre – ela sentia-se tão tonta que teve medo de desmaiar. Não desmaiou. A dor no peito, entretanto, persistia. Cada vez mais forte, cada vez mais sufocante.

Não era possível, ela pensou, algo está errado. Tirou a primeira camada de roupas – fazia frio nesses dias – com pressa, esperando que o enjôo passasse. Não passou. Mesmo depois dos copos seguidos de água que bebera, não passou. Angustiada, foi até o quarto. Retirou camada por camada de roupa, desesperada, como se buscasse achar alguma coisa – qualquer arranhão – que justificasse a dor que estava sentindo. Não achou nada. Seu corpo estava intacto. Não havia nada que pudesse indicar que alguma coisa acontecera durante o dia. O que estava errado?

Entrou na banheira, mas a água quente não a acalmou, como fizera tantas vezes. Descontrolada, começou a chorar, deixando que a água salgada se misturasse com a doce, sem, contudo, anestesiá-la. Mergulhou a cabeça debaixo da água como quem procura se esquecer de tudo que ficou na superfície – tudo o quê? Ela não sabia e não saber talvez fosse pior ainda, o suficiente para não querer voltar ao mundo real. Mas voltou. Ela não se mataria. Não tinha energias para isso.

Incomodada, começou a se trocar lentamente. Colocou seu pijama patético e fez um coque desleixado, só para tirar o cabelo do rosto. O que teria acontecido? O que teria acontecido?, era o que ela queria gritar, mas não havia ninguém para ouvir. Nunca houve. Sempre sozinha. Mas agora doía, doía, doía. Como nunca tinha acontecido antes. Então ela chorou, chorou, chorou. Como se quisesse – ou esperasse- que aquilo fosse deixá-la mais leve. Mas sua respiração estava cada vez mais pesada, como se paredes estivessem comprimindo-a, tornando impossível respirar. Parou de chorar, não tinha fôlego para mais nada além da sua respiração, que também era difícil e dolorida.

Então ela cometeu um erro: olhou-se no espelho. Estava horrorosa. Olhos inchados e vermelhos, assim como a pele. Mas, enquanto a percorria, percebeu algo. Uma dobra pequena, quase imperceptível, perto dos lábios. Quando passou as mãos pela região, áspera, percebeu que estava descascando. Então, imprudente como era, quase sem pensar, arrancou. E arrancou. E arrancou. E arrancou. Não acabava. Sua pele estava indo embora, mas não acabava de puxá-la. Só parou quando seus olhos foram empurrados – tinha arrancado a superfície toda do rosto.

Seus olhos, inexplicavelmente, tinham se afundado. Mas, embora não conseguisse vê-los, ainda enxergava. Infelizmente, ainda enxergava. E pode ver o que estava escondido. Passou os dedos delicadamente por aquela nova pele, ainda mais vermelha. Um vermelho estranho, como se estivesse em carne viva. Cortes secos, certeiros, mutilavam seu rosto. Não havia sinal de sangue nem cicatrizes. Os lábios, também secos, estavam rasgados. Seu rosto agora era outro - todo deformado, todo machucado, todo doído.

Grotesco.

Com raiva, ela quebrou o espelho, mas ainda podia ver seu rosto em cada um dos pedaços caídos no chão. Multiplicado. Continuou a destruir a casa, atirando coisas para todos os lados, de modo que ela ficasse tão fora de ordem quanto seu rosto. Não adiantou. Foi dormir na esperança de que tudo fosse um pesadelo.

Não era.

Decidiu ficar em casa. Não deixaria que ninguém a visse. Não daquele jeito. Ignorou todos os telefonemas, ficou longe do computador, fingiu que não estava em casa todas as vezes que a campainha tocou. Não, ninguém poderia vê-la nesse estado. Ninguém entenderia, ninguém tentaria ajudá-la. Não confiava em ninguém, não podia. Simplesmente não.

Um dia, entretanto, se enjoou de estar sozinha. Não agüentava mais a prisão que tinha construído. Toda aquela dor, amplificada, ameaçava transbordar e ela queria – não, ela precisava de – socorro. Então ela aceitou ajuda. Ela abriu a porta para a próxima pessoa que tentou procurá-la.

Mal pode aproveitar os segundos de alívio por ver outro rosto – que, em nada, lembrava o seu. Tudo foi esquecido com a reação do seu ouvinte, um grito, desses que você ouve em filme de terror. Um grito que dizia mais do que ela queria ouvir. Ignorando seu impulso, o de se esconder, arrastou seu ouvinte para dentro, para que ele ouvisse toda a sua história. Se ele prestou atenção, não saberia dizer, seus olhos não cruzam o buraco vazio que estava onde, antes, tivera olhos, assim como os do outro. Tudo que pode notar é que ele estava inquieto, incomodado, querendo fugir a qualquer pretexto. E assim o fez.

Novamente, ela se viu sozinha na sua feiúra. Gostaria de esquecer o que tinha acabado de acontecer, mas não conseguiria. Doía, doía, doía - mais ainda do que o seu rosto no espelho, se isso era possível. Jamais poderia esquecer o olhar de rejeição. Assim como não esqueceria todos os olhares - e desviadas de olhares – que a perseguiram quando decidiu, semanas depois, sair sozinha na rua.

Não poderia deixar de viver, por mais que, hora ou outra, desesperada, dissesse que preferia morrer a se doer tanto. Ela ia vivendo, sozinha, e cada dia doía menos, menos, menos. Até que um dia, quando já não sentia mais seu peito quase a sufocando de tanta dor, conseguiu andar na rua sem atrair olhares. Nenhum nojo, nenhuma repulsão, apenas indiferença. Tinham finalmente, a aceitado como era, ela pensou radiante.

Chegou em casa tão feliz que poderia cantarolar. E assim o fez enquanto tomava um banho demorado. Vestiu-se com carinho, pegou um livro da estante – seus únicos companheiros nos últimos meses – e ia em direção à sala quando o espelho quebrado no chão a deteve. Não tocara nele nem olhara sua imagem por meses – afinal, do que adiantaria? Curiosamente, aproximou-se. Seu rosto não estava mais deformado. Podia enxergar seus olhos agora. Nenhum corte na superfície. Apenas a pele, branca e lisa como porcelana. Sem expressão nenhuma, apática. Para ela, era tão incômodo quanto o rosto deformado – aquela pele, perfeita demais, era assustadora. Como uma máscara, não parecia humana.